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Papo Kult
Desde: 07/01/2010      Publicadas: 158      Atualização: 21/01/2012

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 03 - VERSO & PROSA

  05/02/2011
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Um pescador em apuros- conto

Um "caso" legítimo de pescador!

Um pescador em apuros- contoUm pescador em apuros

Manoel era homem afamado em Mato Grosso do Sul. Em Campo Grande e em todas as cidades circunvizinhas, a lenda de suas heróicas pescarias se debulhava de boca em boca. Por onde passava o anzol do pescador, a imensa legião de fãs se espremia para poder melhor acomodar os novos associados. Para maior honraria do pantaneiro, bastava apenas o reconhecimento de seus feitos pelo Guines Book. Os editores do famoso livro insistiam em não aceitar a estória ( confirmada por outros pescadores, digo de antemão!) de uma bela sereia loira que certa vez caiu na tarrafa de Manoel.

Enquanto a notoriedade global não vinha, Manoel continuava levando sua vida tranqüila numa pachorra de matuto. Acordava somente depois das dez horas quando o galo, garganta seca de tanto se esgoelar, empoleirava-se sobre a cama. Na casa do pantaneiro, galo que cantasse muito cedo levava chumbo no bico e, se insistisse em cacarejar, era velado em panela de pressão.

Quando chegava a hora do almoço Manoel, após uma descuidada lavada nas mãos, era o primeiro a se apresentar na mesa. Ao som de batidas de talheres no prato, o pantaneiro e seu cão perdigueiro, Urtigão, gemiam ansiosos pela comida predileta: peixe! A mulher, uma índia vítima da tarrafa de Manoel, servia calada a refeição. Sempre foi assim; desde pequenos, Urtigão e Manoel recebiam de suas respectivas mães o mimo de esperarem a comida no prato.

À tarde, com a boca soltando lufos de peixe Manoel, trazendo Urtigão a tiracolo, pegava sua tarrafa e corria para o rio. Despreocupado com o tempo, ficava por ali até a fome apertar novamente. Raras vezes, quando a ocasião de um peixe mais teimoso exigia, o pantaneiro se deixava levar pela boca da noite, a fim de tocaiar o valente escamoso. Teve uma vez, inclusive, que após posar no pequeno bote, o pantaneiro acordou assustado com um peixe-boi cochilando em seu colo. Resultado: durante uma semana inteira Manoel teve comida e assunto de sobra para oferecer aos outros pantaneiros que, enfileirados em romaria, passaram a freqüentar a sua casa.

Para os romeiros só havia dois nomes de grande valia para uma boa prosa baforenta. Jesus nos céus e Manoel pescador na terra. As proezas do pescador, num rabo de foguete, atravessaram as fronteiras que prendiam-nas nos limites de Mato Grosso do Sul. O nome de Manoel foi voar longe causando maior estardalhaço nos ouvidos de Cuiabá.

Botando fé nas conversas que desabavam em seu gabinete e sendo atormentado durante meses por uma aparição que atacava as moçoilas da cidade, o prefeito de Cuiabá providenciou uma escolta para busca Manoel. Só um pescador daquele gabarito pode dar cabo à assombração!, imaginou.

Nem bem havia se chorado a morte de uma noite, Manoel, olhos ainda remelentos, descarregou seu peso em solo cuiabano. Condoído com o caso repentino, o pantaneiro desposou-se das pesadas botas de couro e, alardeando um par de meias furadas, pôs os pés sobre a mesinha do gabinete. A conversa na prefeitura exigia tranqüilidade.

- Pronto, doutô!- avisou Manoel.- Pode despejá o caso nas minhas orelhas.

Vestindo a pele alva da aflição, o prefeito desencadeou a prosa espremida na garganta.

- Estamos com um problemão, senhor Manoel! Nem o exército pôde nos socorrer... Há um boto rosa solto em nossa cidade!

Manoel era eclético em suas defesas. Mesmo comovido com a dor da autoridade, não deixou o símbolo das Forças Armadas ser denegrido. A afronta ao exército não conseguiu evaporar da sala sem uma resposta satisfatória em seu calcanhar.

- Desculpe a ousadia, doutô... mas o exército não podia vir aqui sujá a patente, de modo algum! Exército é para exercitá! Boto é para pescadô... caso para dois dedos de prosa entre eu e o bicho!

O prefeito percebeu que Manoel tinha seus princípios. Se quisesse prender o pescador na empreitada, teria que mudar o laço da conversa. A politicagem entrou em cena.

- Foi justamente por isso que eu trouxe o senhor até aqui. Reconheço que somente um pescador do seu nível, e suas qualidades, consegue findar com os dias do boto rosa.

Em outros carnavais, Manoel já tinha ouvido falar do boto. Sujeito tinhoso, desses capazes de encantar súcias de saia numa única piscadela. Sem falar que o bicho exibia preferência por donzelas; indivíduos afrescalhados não atiçavam a tara do boto. Realmente o caso exigia a intervenção de um especialista!, pensou Manoel.

- Bem...-filosofou o pescador. - ... se é pra modo de defender a honra das donzelas, diga ao povo que eu pesco!

Sem nunca ter sido fã dos rega-bofes, Manoel dispensou os suplentes de pescador oferecidos pela prefeitura de Cuiabá. Em suas aventuras, somente Urtigão tinha o privilégio de acompanha-lo. "Urtigão vale mais que qualquer caboclo maricado em escritório!", costumava dizer.

Caprichoso em seus remendos, a tarrafa foi a única arma que carimbou o visto de permanência no pequeno bote de Manoel. Já no rio, o pescador não gostava de acumular vantagens para si. O prélio seria decidido em igual poderio entre ele e o boto. Urtigão dera sua ganida de honra de que não se intrometeria na briga.

O cenário para a batalha dos titãs já estava armado. As águas estavam claras, os bichos empoleirados e a lua, depois de muita insistência, concordou em ser a juíza. No entanto, o ressabiado convidado de honra estranhamente não honrou com o seu compromisso. Duas longas horas escorreram pela noite e nenhum sinal do boto rosa.

- Até parece que o bicho trabalha no congresso! - irritou-se Manoel.

Ouvindo a insultante comparação, a assombração resolveu dar as caras. É bem verdade que o boto fedia a peixe, mas nunca esteve mergulhado em lamas...

- Nunca fui tão ofendido! - bradou.

Podendo contar com a presença dos dois semi-deuses, a pescaria teve início. Rápido como um gafanhoto, Manoel lançou a tarrafa. O boto, só com a chispa dos olhos, derreteu o projétil no meio do caminho. Por pouco as labaredas não lamberam o bote, incinerando o pescador.

Pensando estar diante de uma legítima assombração, Manoel apegou-se fervorosamente num pequeno crucifixo.

- Virgem Maria! É o canhoto!

Não sei se as madeiras estavam podres ou foram os seis pares de pernas que fizeram o bote tremer. Naquele instante, os dois tripulantes da pequena embarcação uniram vozes num ritual de exorcismo.

- Vá de ré chifrudo! Saia do corpo deste peixe!

Se a fé remove montanhas, imagine o estrago causado no boto rosa! A pele do bicho se abriu por inteira. Um enorme jacaré com olhos esbugalhados saiu de dentro do boto.

- Desalmados! Sem vergonhas! - choramingou o réptil. - Levei anos para criar esse disfarce, e vocês o destroem numa rezinha de carola!!! Por acaso vocês sabem como é difícil um jacaré viver no pantanal?

Ninguém se pronunciou. Vítimas do feitiço do pavor, Manoel e Urtigão estacaram-se petrificados.
Não encontrando nenhum psicanalista de plantão, o jacaré, cólera por todo o couro, investiu contra a dupla de canastrões. Com a boca bem escancarada, engoliu-os num único fôlego. Depois daquele dia, Cuiabá nunca mais foi atacada pelo boto. Assim como Manoel e Urtigão, o animal mergulhou para sempre nas profundas águas do rio.


  Autor: Rogério Germani


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