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Papo Kult
Desde: 07/01/2010      Publicadas: 158      Atualização: 21/01/2012

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 03 - VERSO & PROSA

  21/01/2012
  1 comentário(s)


Olhos juízes

O terror ronda Ibiporã... ao menos neste conto de arrepiar os cabelos...rsrs

Olhos juízesOlhos juízes

Forasteiro em cidade pequena é sempre uma esfinge. Desde a chegada- geralmente na proteção da noite- a novidade segue os desígnios do vento; os comentários a respeito do estranho são diversos; ganham vida, intensificam-se na incumbência das bocas famigeradas e malditosas. E Antônio era forasteiro em Ibiporã...

Indivíduo de poucas palavras e riqueza nenhuma, o rapaz, vinte e dois anos no máximo,escondia-se por detrás de uma espessa barba negra. Trazia uma bolsa grande com alças douradas e uma capa preta digna de mistério.Nada, porém, chamava tanto a atenção como os olhos do visitante.Verdes e viscosos. Olhos de caçador.

Para alarde geral, no dia seguinte Antônio surpreendeu a cidade com uma tenda cigana armada próxima à antiga ferroviária. Com o comércio de previsões e consultas zodiacais, o nômade deu início à macabra lenda que até hoje insiste em alimentar meus temores. Lembro-me que, naqueles dias sombrios, os méritos pelas visões futurísticas rapidamente obtiveram ascensão entre o povo curioso que buscava o cigano; céticos de todas as religiões, às escondidas, pediam-lhe consultas; milhares de mapas astrais pululavam em todos os rumos. O cosmos e Ibiporã conspiravam à favor de Antônio.

Tantos elogios veementes a respeito do guru atingiram as estrelas e os ouvidos de uma taciturna personagem: Rita. Mesmo sendo tímida, a moça elevou seus católicos olhos azuis em direção aos céus e, regida pelas constelações, deixou-se guiar até a tenda cigana.

Talvez pressentindo algo estranho, Antônio se viu atordoado quando Rita surgiu angelical no meio da noite.

- Oi...

- O que você deseja saber? Presente? Passado ou futuro?- adiantou-se o prosélito das premonições.
Rita, dentro de uma névoa de encantamento, toda acanhada e sonhadora, enfeitiçou o forasteiro num sussurro:

- Quando vou encontrar um amor verdadeiro?

Antônio entrou em transe. Corpo totalmente petrificado, verdes olhos suplicantes e uma imensa vontade interior de tocar os lábios da bela consulente.

Mesmo não sendo clarividente, Rita cruzou os seus piedosos olhos azuis com o olhar perdido do cigano.Sentiu-se confiante e confortavelmente segura.Prosseguiu:

- Acho que não presciso saber de mais nada... já descobri o amor.

Disse isto e delicadamente avançou contra o rapaz.

Antes que o beijo fosse selado, Antônio, novamente desperto e dono de si, esquivou-se de Rita:

- Não faça isso! Se eu beijar alguém, perco os meus dons! É o meu karma nunca conhecer o amor.

Perplexa com o tabu revelado, a moça estancou seu sentimento crescente.

- Afaste-se de mim!- gritou Antônio, repleto de ira.- Vá embora e não volte nunca mais!

Chorando e sem nada entender, Rita fugiu da tenda. Coração dilacerado e confusa por completa, acatou a rejeição com fúria. Decidiu-se por vingança: diabolicamente, alastrou por toda a cidade a notícia de que o forasteiro quis estruprá-la.

Povo interiorano, ninguém questionou a veracidade do fato. Duvidar pra quê? Oras, a Rita era uma moça santa! A moral e os bons costumes de Ibiporã haviam sidos manchados e o monstro peregrino teria que pagar por isso! Com tochas acesas nas mãos, os justiceiros anônimos, partiram atrás do mal feitor.
Avistando a multidão iluminada se aproximando rapidamente aos gritos de "Lincha! Lincha!", Antônio previu o seu iminente inferno astral. Não teve tempo de hesitar; correu levando embora apenas a bolsa grande com alças douradas.

Protegido pela escuridão de um matagal e já distante da turba, o vidente consultou os seus pertences dentro da bolsa. Encontrou um livro de magia negra e um punhal. Ainda refletindo sobre o seu recente mau agouro e respirando com esforço, Antônio selecionou entre as páginas suarentas um feitiço sinistro para dissipar as atuais nuvens carregadas. Apavorada, a noite foi testemunha de um aliviado riso macabro.

Os ecos do humor negro foram longe; forças sobrenaturais, num convite fúnebre, fizeram com que um vulto aproximasse do ritual satânico elaborado pelo forasteiro.

- Rita!- sorriu maquiavélico Antônio.- Você voltou pra mim!

Houve cizânia entre os pensamentos e as pernas de Rita; a concussão deixou a moça inteiramente paralisada. Num pavor colossal, viu o bruxo agigantar-se em seu caminho. Debalde tentou gritar; o medo havia aprisionado a sua voz.

Antônio, verdejando a noite com seus olhos arregalados, juntou-se ao corpo de Rita beijando-lhe a boca em seguida. Enquanto enlaçava a virgem com uma das mãos, com a outra, pelas costas, apunhalou o coração da vítima.E assim permaneceu neste ósculo tenebroso até que Rita sucumbiu em seus braços.
Retirado o punhal do corpo do cadáver, Antônio pôs todo o seu culto de maldade contra os olhos azuis da falecida; arrancou-os bruscamente e, com um ódio roaz, devorou-os para amainar sua voragem kármica.

Satisfeito por dentro e corajoso por fora, o bruxo pensou no seu esconderijo. Tinha certeza que, com o feitiço bem realizado, ninguém mais iria se lembrar de Rita. Novamente teria uma vida e o resto daquela noite para dormir tranquilo.

Sem nenhum remorso ou sobressaltos, Antônio chegou na segurança de sua tenda. O cansaço fê-lo se jogar na cama acolhedora; rapidamente aprofundou-se nos sonhos.

Madrugada avançada, o vidente, já cochilando, ouviu uma voz rouca chamando o seu nome do lado de fora do abrigo cigano. Acreditando ser fruto do sono, o rapaz não deu atênção e voltou a dormir.

- Antônio... Antônio!- insistiu o chamado, desta vez dentro do quarto.

Antônio abriu os olhos verdes e se congelou. Nos pés de sua cama, um cadáver com dois enormes buracos no rosto e uma túnica branca embebecida de sangue sorriu para, na sequência, avançar sobre o lençol.

- Eu vim buscar os meus olhos, querido!- gargalhou a defunta.- Prometo, a partir de hoje, só ter olhos para você!

Misteriosamente,as lembranças daquela noite desapareceram; Ibiporã nunca mais teve notícias de Antônio, muito menos de Rita. E, para meu tormento e triste destino, ninguém acredita que fui testemunha ocular do desaparecimento da tenda cigana. Dizem que é sandice, histórias malucas que um velho cego como eu sai contando pelas estradas solitárias.

  Autor: Rogério Germani


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