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Papo Kult
Desde: 07/01/2010      Publicadas: 158      Atualização: 21/01/2012

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 03 - VERSO & PROSA

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O rancho- 1° conto macabro de 2011

Numa cidadezinha qualquer, o terror habita as almas... qualquer alma...

O rancho

Existe um rancho perdido na estrada entre Siqueira Campos e o patrimônio Alemoa onde visões nebulosas confundem alguns motoristas através de seus mistérios cravados nas mentes daqueles que passam por ali afoitos. Dizem, alguns transeuntes desavisados, que, durante as madrugadas, o silêncio funesto do rancho congela os ossos dos covardes e os gritos agourentos que o contornam são capazes de afugentar os desbravadores mais corajosos.

Quando planejou acampar sozinho na praiazinha da Alemoa, no fim de semana, Carlos ignorou os relatos dos moradores da região. Era dezembro, verão forte, e o empresário só tinha uma meta em seus pensamentos: relaxar. Depois de uma semana estressante no trabalho e longas brigas fúteis com a esposa, o lazer caíra como uma luva em seu tenso corpo.

Deixando planilhas e cálculos para trás, o empresário, a bordo de um Corsa Sedan 2006 prata, velozmente abandonou Siqueira Campos e iniciou a busca por seu merecido descanso.

Mesmo sendo numa estrada sinuosa, o carro demonstrava o seu vigor mecânico à natureza. Em alta velocidade os pneus Michellin novos devoravam o asfalto ainda quente das 18:00 horas. Araucárias outros árvores submissas curvaram-se numa espécie de cortejo forçado diante da robustez do veículo.
Tamanha devoção aos milagres do acelerador fez com que, rapidamente, Carlos avistasse Alecrim, o patrimônio mais próximo de Siqueira Campos. Concentrado como estava em atingir o limite do velocímetro, nem notou que, estranhamente, o vilarejo demonstrou-se deserto àquela hora. Também não percebeu a enorme quantidade de urubus que transitavam taciturnos no céu silente; tantos eram os carniceiros que um eclipse emplumado estabeleceu domínio pleno nas casas vazias.

Disperso e procurando sintonizar uma estação de rádio com a mão direita, o empresário prosseguiu em seu destino. Após ouvir vários chiados do aparelho, a sinfonia de O Guarani ecoou alto dentro do carro. Imediatamente o rádio foi desligado. "Maldita Voz do Brasil!"

Sem opções, o motorista iniciou a sessão musicaoquê? Enquanto batucava no volante. Seu canto deplorável lembrava ganidos tristes de cães confrontando-se com a carrocinha. Mas Carlos estava sozinho e alegre. E isto era o mais importante.

Súbito, em meio a uma canção rancheira, o artista se vê obrigado a frear o Corsa Sedan bruscamente. Alguns metros a sua frente, uma cena o atemoriza. Tendo um casebre queimado como cenário de fundo, uma família inteira surge caída na beira da estrada. Todos mortos.

Aturdido, Carlos sai do carro e caminha em direção dos cadáveres. "Meu Deus!", é o que consegue dizer diante da enorme poça de sangue que lentamente se alastrava no asfalto. Apavorado ele se aproxima ainda mais; remexe nos corpos com cautela e, para sua surpresa, não encontra sinais de carbonização. Depara-se com mais sangue. Sangue extraído pela fria lâmina de uma faca de cozinha. "Que chacina foi essa?!", desespera-se vendo os mortos mutilados. Por baixo, ele conta vinte facadas em cada ente da desconhecida família; há cortes profundos em toda extensão dos corpos; braços, pernas e, cruelmente, os rostos dos pais desfigurados. "Que barbárie!", lamenta-se sobre o cadáver de uma menininha aparentando, no máximo, 3 anos. "A idade da minha filha""

Carlos só não chora porque ouve outro gemido. Baixíssimo. Quase inaudível. O suficiente para ele vasculhar ensandecido por um sobrevivente naquele quadro pintado em cores macabras.

Quase sem fôlego, ele estagnasse quando, todo ensangüentado e encolhido, um frágil menino de 5 anos emerge em seus olhos. Instintivamente ele recolhe a pobre criança que, em soluços o abraça.
Comovido, o empresário coloca a indefesa criatura dentro do carro e, sem pensar em nada, retorna a estrada no sentido de volta à Siqueira Campos, sua residência. O menino nada diz; apenas observa o seu salvador devorando quilômetros. Seu rosto é vazio; expressão de quem passou pelo pior.

De volta a sua casa, com o garoto emaranhado no colo, o empresário abre o portão à base de pontapés. Com o barulho brusco, uma luz se acende na varanda e uma mulher jovem surge na porta da residência.

- O que aconteceu, querido? " indaga em desespero a esposa de Carlos assim que põe os olhos na criança coberta d sangue.

- Não há tempo para conversas.- avisa o homem já entrando na sala e indo a direção ao banheiro. " Só feche a porta e me traga uma toalha e remédios para tirar a dor" Rápido!

Enquanto a mulher vai buscar os medicamentos, Carlos coloca o menino embaixo do chuveiro. Mesmo com a água fria, a criança não reclama; sua atenção está voltada para os olhos do homem que o resgatou.

- Aqui está a toalha.- diz a esposa estendendo um pano seco ao marido que, com cuidados, retira o sangue tatuado no corpo do menino.

Sem muito entender, a mulher assiste o "batismo" e percebe, ao final, que o garoto fica inteiramente limpo; sem sangue e sem nenhum sinal de ferimentos.

- O que você está olhando aí parada?- exalta-se Carlos.- Ligue imediatamente para a polícia" houve uma chacina.

- Não dá. " desculpa-se a esposa.- Não sei por que, mas os telefones da cidade estão mudos a algum tempo. Ninguém consegue comunicação.

- Que merda! " esbraveja Carlos. " Então fique aqui cuidando do garoto que eu vou até à delegacia. E, a propósito, onde está a Camila?

- A nossa filha está dormindo na nossa cama.

Carlos fica pensativo.

- Termine de enxugar o menino e leve-o para ele dormir lá também" Ele deve estar exausto.

A esposa obedece: em poucos minutos as duas crianças estão cochilando lado a lado.

- E tranque a porta quando eu sair. " declara Carlos.

De dentro do quarto, a mulher ouve o marido ligar o motor do carro e sair em direção ao centro da cidade. Mecanicamente ela vai até a sala, dá duas voltas na chave da porta e, aliviada, retorna ao quarto; a cama espaçosa convida-a a dormir. E ela aceita o convite.

Quinze tensos minutos se passam e o empresário abre novamente a porta de sua casa. Sôfrego, ele perambula pelos cômodos e corre para o quarto para contar as novas da polícia à esposa. Ainda estavam brigados é verdade, mas os acontecimentos atuais pediam trégua, novamente conversas informais. Já no corredor, o coração dispara. Um suor frio o transpassa. Fervilhando a cabeça, ele, num salto, invade o quarto.

- Nãããooooooo!

Inundados por uma espessa camada vermelha, mãe e filha adormecem mortas sobre a cama; seus corpos perfurados como esponjas embebecidas em sangue gotejam uma macabra cascata rubra.

Em meio ao terror crescente, Carlos procura pelo menino que ele outrora resgatara. Frágil e todo lambuzado de sangue, a criança olha insistentemente para o olhar perdido do empresário.

Como num dejá-vu, Carlos fica paralisado diante do indefeso menino, mas com uma diferença. O menino retém numa das mãos uma faca ensangüentada e uma luz sinistra nos enormes olhos infantis. Olhos inocentes. Olhos de quem já viu o pior.









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