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Papo Kult
Desde: 07/01/2010      Publicadas: 158      Atualização: 21/01/2012

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 03 - VERSO & PROSA

  13/03/2011
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A palavra

Em meio a pluraridade de idiomas e linguagens, ele ousou ser ele mesmo: buscou sua própria palavra.

A palavraA palavra

Tinhoso de quilate maior, encasquetou-se com uma idéia e, sem pedir opinião a ninguém, decidiu procurar algo novo.Uma palavra. Sua própria palavra.
Em princípio, com um caderninho de anotações totalmente nu, engatinhou passos desconfiados pela vizinhança. Prédios e mais prédios exibiam, todos extasiados de orgulho, as ordenanças da sociedade, através de seus letreiros colossais nas fachadas: Bourbons, Plazas, Venezas e tantos outros pomposos nomes cresciam aos olhos humanos numa espécie de veneração involuntária. Os velhos casarões, últimos sobreviventes da ditadura militar, período em que o direito das palavras era concedido a poucos (mais para quem não tinha o que dizer), também sofriam do mal do século.Inúmeras placas de consultórios competiam entre si nas portas apodrecidas por cupins analfabetos; atreladas às paredes, iam-se panfletos de política e tantas outras bobagens.
Para quem estava procurando uma nova palavra, o bairro todo causou pena. O lugar era a própria inércia gramatical, o comodismo temporal na maneira de pensar.
Desenganado por sua gana de descobrir, arredou o pé para as bandas do centro da cidade. Lugar luminoso, por excelência, o berço do comércio quis embala-lo num sonho de consumo. Reclames de tudo quanto é marca e serventia pousaram na sua frente. Cartazes de produtos miraculosos pregavam, proféticos, a cura para o envelhecimento " aqui quero deixar o meu protesto: Velhice não é sinônimo de doença. Além do mais, não se pode quebrar o ciclo da vida. Perderia o sentido, o elo de autenticidade.- e outras mazelas do corpo. Um estardalhaço de anúncios corria nos ares e feria-lhe os ouvidos.
- Eta mundo pagão! " Esbravejou.
Carregando consigo um olhar de ateu que nada possuía, agarrou-se em nova idéia e fugiu da cidade. Comprou passagem aérea sem pronunciar uma única vogal e, de imediato, embarcou para Israel. Talvez a "Terra Santa" ainda estaria intacta, livre da propaganda impositória e abusiva.
Desejoso de topar com outra realidade, pôs os pés no oriente sem abrir os olhos. Porém, mal suas vistas saíram da escuridão temporária, deparou-se com grata novidade. Israel não possuía anúncios. Tinha guerra.
Inconformado com a situação constrangedora, quis obter respostas. Desviando-se das balas de metralhadoras e mísseis, chegou ao foco da guerrilha. Sem muita cerimônia, arrastou um israelita e um palestino para um canto qualquer.
- Por que vocês estão brigando? " Perguntou de prontidão.
O primeiro a responder foi o israelita:
- Sabe que eu já nem sei. Apenas obedeço ordens.
Para não ficar atrás, o palestino tomou a palavra:
- Eu também, eu também. Não sou muito de pensar, apenas cumpro ordens.
Sem entender nada, o caçador de palavras afastou-se dali, deixando seus anfitriões na mais bela confraternização bélica.
De volta às suas origens, lembrou-se de um local onde ainda não tinha ido. Em pés de vento, adentrou-se numa igreja. Por sobre o altar, um cristo de metal o aguardava.
- Senhor, - indagou ajoelhando diante da imagem do messias.- o mundo não me deixa pensar, não permite que eu tenha minhas próprias idéias, meus próprios caminhos. Tanto faz se é no ocidente ou no oriente, o sistema corrompeu a vontade própria, os meios de comunicação nos robotizaram a maneira de viver. Desde o meu acordar até a hora de dormir, me sinto dominado por normas. Onde está o livre arbítrio, Senhor? Cadê a minha própria palavra?
Finadas as interrogações, a imagem, em sua sabedoria de metal, observou-o piedosamente. O silêncio na nave acompanhou-lhe o sentimento.
Foi nesse instante que o campeador da palavra compreendeu: havia descoberto a sua palavra. O silêncio que carregava por toda sua vida era a palavra.Palavra valiosa. O bem maior neste mundo repleto de asneiras.
  Autor:   Rogério Germani


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