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Papo Kult
Desde: 07/01/2010      Publicadas: 158      Atualização: 21/01/2012

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 03 - VERSO & PROSA

  15/01/2011
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A arca

Em época de chuva, o melhor é entrar numa arca...

A arcaDurante uma conferência sobre espiritismo, com uma admiração primata, eu avistei o fogo; vinda de outro mundo, a luz doutrinal dos espíritos dogmatizava que os males do nosso mundo primitivo provinha dos nossos próprios instintos animais. Sou um burro!, gritei para a lesma do meu cérebro, por que eu não pensei nisso antes?

Afastei-me da palestra completamente católico e mais ambicioso do que nunca; se pudesse viver de novo, Noé morreria de inveja da arca que eu planejava fazer. Seqüestrar alguns casais de animaizinhos na época dele fora fácil: bastaram parca madeira e paciência. Difícil, hoje, é enfrentar as perigosíssimas multas do IBAMA e as feras do Green Peace. Para resgatar os bichos da Terra, ou pelo menos os existentes em minha cidade, é preciso ter topete; e isso graças a Diana " Deusa grega da caça - , eu tinha (estou ficando calvo).

O que eu não tenho é a força de um cavalo; chamei o irmão urso " taí uma espécie solidária; abraçou a causa prontamente - , e, juntos, construímos a arca. Depois, embarcação em movimento, cada um com uma lista embaixo do braço, saímos pregando a salvação dos cordeiros eminentes. Fomos além: protestamos contra o dilúvio da violência cotidiana.

Os gritos bestiais deram resultado. Deus, talvez estourando de dor de cabeça, enviou-nos os nossos primeiros fiéis: um veado, uma galinha e um leitão, que fazia blitz nos outros dois elementos.

Seguindo nosso caminho, mais adiante, topamos com uma vaca aos berros de "Não me coma! Não me coma! Eu sou pura!" e um urubu correndo logo atrás. Não pensei duas vezes: mandei o urso descansar e tomei a dianteira no caso; fiz o convite. A vaca não se fez de rogada. O urubu, sempre pessimista, antes de entrar resmungou o seu veredicto:

- Isso não vai prestar!

Ignorei a sentença do agourento animal e retomei o meu rumo. Meu horóscopo dizia que o mês estava bom para caça. E neste pensamento, passando por uma praça, avistei um bicho-grilo e um bicho-preguiça vendendo cristais e incenso numa tendinha.

- Mermãos, vamos curtir uma viagem? " interroguei-os " Só verde e paz de espírito para vocês.

Imediatamente eles entenderam que as conspirações do cosmos seriam favoráveis a eles.

- Podes crê. Maior barato... Tamos dentro.

Depois, desfraldei-me lá pras bandas do centro. Acabei interrompendo um jantar em família, mas foi válido; convenci uma cobra, um boi manso (genro da cobra) e uma perua toda coberta de cremes cosméticos a me seguirem; ofereci Tv a cabo como prêmio + 1 assinatura exclusiva do Discovery Channel.

Perto da prefeitura, um tucano discutia política com um macaco velho. Lancei a minha lábia sobre eles e fui mal interpretado; acharam-me uma tremenda anta em querer afasta-los da antiga mamata. Em contrapartida, argumentei com recursos de raposa:

- Vai ter muito dim-dim no final e isenção de trabalho.

Aceitaram. Uma girafa, dando uma pescoçada na conversa, também concordou com o pacto.

Sentindo-me verdadeira águia de Haia, corri mundo; ganhei os bairros menos favorecidos. Num terreiro de candomblé fui ter com um galo:

- Rapaz, tu cantas tão bem que é melhor tu cantar na arca!

Inflado feito pavão, o galináceo empoleirou-se na embarcação.

Com música de primeira linha, outros animais vieram rapidamente. O meu veículo da salvação encheu-se de cachorras, tigrões, gatinhas, potrancas, tanajuras e inúmeros bichos dançantes.
Quase dando-me por satisfeito - já havia fechado as portas da arca -, assustei-me quando um vulto pulou a janela. Pedi-lhe os documentos e ele me mostrou uma carteirinha carimbada pela lei; não pude expulsá-lo: sapo é sapo!

Assim que conheci o meu último tripulante, voltei-me para dentro do instrumento de resgate animal e fiquei besta. Meu Deus!, que balbúrdia! Tudo quanto era bicho na maior bagunça. Camelo brigando com morcego; piranha paquerando lombriga; vó coruja abraçando patinho feio; lagarto babando em ovos de gansa. Nem a sabedoria do elefante indiano podia explicar o aumento da tripulação que, naquele momento, mais parecia a população da China.

Diante da miscelânea, não agi como um rato; juntei passos e tranqüilidade budistas e berrei:

- Vocês que são bichos que se entendam! Eu vou dar o fora daqui!

Antes, porém, num ato jocoso, pus uma placa chinesa na arca com uma mensagem para futuros e desavisados São Franciscos lerem: Bao He Dian.("Templo da eterna harmonia")
E corri feliz, rindo igual uma hiena num mundo ateu.

  Autor:   Rogério Germani


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